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A L-lisina é mesmo ineficaz para tratar o herpes vírus (HFV-1) felino?

“Alguns gatos têm uma resposta muito convincente [ao uso da L-lisina], apesar do que a ciência diz” .

Dr. Gary Norsworthy

Tem recebido atenção nos fóruns e páginas sobre gatos um estudo científico publicado com o título “A suplementação da L-lisina não é eficaz para a prevenção ou para o tratamento da infecção pelo herpes vírus felino em gatos: uma revisão sistemática”(Lysine supplementation is not effective for the prevention or treatment of feline herpesvirus 1 infection in cats: a systematic review).

Herpes vírus

O principal argumento dos autores, que não são veterinários, é que o embasamento para o uso do suplemento seria feito em evidências circunstanciais, portanto, sem fundamento científico.

O estudo não apresentou uma pesquisa nova, revisou trabalhos já publicados, sendo: 2 estudos in vitro, 5 estudos clínicos com gatos  e 10 estudos sobre humanos.

Os autores foram bem menos cuidadosos do que normalmente são os cientistas de uma forma geral, principalmente aqueles que trabalham com pesquisas voltadas a humanos: escolheram um título para o artigo que sugere a finalização do assunto e encerram com uma recomendação da interrupção do uso do suplemento.

Em que pese a importância de evidências científicas claras para a recomendação de uso de uma suplementação, seria de se esperar o mesmo para uma recomendação de interrupção desse uso.

Ainda pelo caminho das evidências circunstanciais, a minha experiência pessoal (de proprietária) com a L-lisina para tratamento do herpes vírus é, de forma geral, muito positiva. Eu percebi a mesma opinião favorável nos comentários feitos em fóruns onde li a notícia. Um desses comentários, feito por uma veterinária, faz um observação interessante, já que alguns dos estudos revisados foram feitos com gatos de abrigo, normalmente mais estressados do que aqueles domiciliados e, portanto, passíveis de respostas mais pobres a tratamentos: “Eu não sei o que eu julgaria resposta em um indivíduo (gato) domiciliado versus os gatos altamente estressados de um abrigo. Pode haver alguma diferença em resposta à terapia”.

Um dos autores do estudo sugeriu ainda que os gatos submetidos ao tratamento com a L-lisina e que apresentaram melhoras poderiam, na verdade, ter melhorado com passagem do tempo e não com o suplemento. Sobre isso, é interessante notar que gatos com herpes vírus costumam ter os sintomas agravados quando não têm um tratamento eficaz.

Uma conclusão do artigo com contribuição mais proveitosa seria, possivelmente, sugerir mais estudos controlados, com amostras mais significativas, sobre o assunto. Ficamos no aguardo de que isso aconteça em breve.

Enquanto a nova edição do Manual Merck de Veterinária parece que endossará a conclusão do artigo, dois veterinários, especialistas no assunto, pediram mais cautela.

A revista eletrônica “Veterinary Practice News” publicou uma análise do artigo e da entrevista que fez com um dos autores, Sebastiaan Bol, e dois veterinários, Dr. David Maggs e Dr. Gary D. Norsworthy, que está a seguir.

 

L-lisina para FIV? Pesquisadores dizem para não se dar ao trabalho

http://www.veterinarypracticenews.com/lysine-for-fhv-researchers-say-dont-bother/ (em tradução livre)

Dois virologistas estão estimulando os veterinários a interromper imediatamente a suplementação da L-lisina em gatos que sofrem com o herpes vírus felino, porque dizem que a terapia é ineficaz.

A conclusão deles, publicada em 16 de novembro 2015 no jornal on-line BMC Veterinary Research, teve uma reação cautelosa por parte de dois especialistas nesse campo, que disseram que as evidências circunstanciais sobre o sucesso do uso da L-lisina deixam aberta a possibilidade de que a terapia funcione.

O casal de virologistas, Sebastiaan Bol e Evelien M.Bunnik, ambos Ph.D, chegou à conclusão depois de conduzir uma revisão sistemática, essencialmente um estudo de estudos anteriores sobre a L-Lisina.

Bol, que assim como a sua esposa trabalha na Universidade da Califórnia, Riverside, começou a pesquisa depois que o seu gatos de 8 anos, LisinaAguereberry, foi diagnosticado como o herpes vírus felino tipo 1 (FHV-1), uma infecção do sistema respiratório superior altamente contagiosa. O veterinário consultado recomendou o suplemento nutricional L-Lisina para tratar e manejar a doença.

“Com a minha experiência em biologia e em nutrição, eu fiquei muito desconfiado e comecei a clicar, fazendo algumas buscas-online – e eu não estava muito convencido”, disse Bol. “Então eu comecei a olhar para mais e mais publicações, e foi realmente chocante ver que não há absolutamente nenhuma prova [de que a lisina é eficaz em gatos].”

O artigo de Bol e Bunnik analisou 7 estudos sobre L-lsina e FVH-1 –  dois estudos in vitro e 5 envolvendo gatos – assim como 10 estudos sobre herpevírus-1 humano. Examinando artigos desde 1970, Bol descobriu que a recomendação para o uso de L-lisina em gatos tinha se originado em um estudo humano.

“Os estudos veterinários não ofereceram nenhuma prova científica da eficácia da L-lisina em gatos”, disse Bol. Todos esses artigos, segundo ele, chegaram quase a ponto de defender o fim da suplementação de lisina em casos de FHV-1.

O que Bol não sabia a princípio era a frequência com que os veterinários prescreviam L-lisina para tratar o herpes felino. O veterinário do gato Aguereberry seguia a multidão ou era uma exceção?

“Então, eu fiz uma pesquisa e descobri que mais de 90%dos médicos veterinários a recomendam”, disse Bol.

Ele perguntou a 68 hospitais veterinários especialistas em gatos em todos os EUA, Austrália e Reino Unido se eles prescreviam a L-lisina. Dos 23 hospitais que responderam, 21, ou 91%, responderam que sim.

O pesquisador sobre herpes felino e professor de oftalmologia veterinária da Universidade da Califórnia-Davis, David Maggs, elogiou Bol pela pesquisa adicional, e ele e a esposa (Bol e Bunnik) pelo trabalho global do casal.

“Os autores fizeram uma grande revisão de literatura”, afirmou o Dr. Maggs. “Parece muito abrangente e completa. “Eles localizaram um ou dois artigos de que eu não tinha conhecimento e todos que eu conhecia”.

O Dr. Maggs foi coautor de 5 dos 7 estudos veterinários analisados. Mas nenhum deles chegou à mesma conclusão que o estudo de Bol: a recomendação da imediata interrupção da suplementação com L-lisina por causa da completa falta de evidencia científica da sua eficácia.

“Eu fique surpreso com a conclusão”, disse o Dr.Maggs. “A conclusão parece ser, pelo menos para a ciência, muito audaciosamente declarada. Os cientistas são conhecidos por não fazerem afirmações muito audaciosas, e isso é uma crítica que costumamos receber.

“Dizer que não há evidência soa-me um pouco estranho, porque, no próprio texto do estudo, eles salientam que houve pelo menos um estudo que sugere um benefício”.

Bol respondeu que, dos estudos clínicos felinos que ele examinou, “talvez um estudo” tenha encontrado alguma coisa “, “mas que foi apenas depois que eles olharam minuciosamente para uma coisa específica”.

Ele também observou que os estudos clínicos tiveram amostras pequenas e que o estudo que mostrou alguma eficácia “apenas comparou 4 gatos com 4 outros gatos”.

Segundo Magg, as evidências circunstanciais não devem ser descartadas.

“Eu tenho clientes que me dizem que os problemas retornam todas as vezes que eles suspendem a L-lisina”, afirmou o Dr. Magg. “Agora, isso é evidência totalmente circunstancial, mas… Eu estou usando isso como exemplo de que nós não deveríamos recomendar uma interrupção imediata da terapia para todos os gatos”.

“Claramente há alguns gatos que respondem bem em uma doença que às vezes tem sinais muito sutis” acrescentou. “Talvez seja melhor deixar esses gatos com a L-lisina se os clientes realmente sentem que está fazendo diferença.”

O comentário do Dr. Magg foi endossado pelo Dr. Gary Norsworthy, veterinário coautor do livro “O paciente felino” – 4ª. Ed.

“[a L-lisina] é frequentemente usada por vários dos meus clientes por recomendação do Dr. Google”, afirmou o Dr. Norsworthy. “Alguns gatos têm um resposta muito convincente, apesar do que a ciência diz”.

“Eu não recomendo isso com um tratamento de primeira linha para o herpes vírus felino”, ele disse, “mas eu também não desencorajo o seu uso. Gatos não são muito versados em literatura. O uso do suplemento deve ser baseado na resposta, seja ela científica ou não.”

O livro “O paciente felino” atribui alguma incerteza sobre a L-lisina. Uma parte diz:

“Durante muitos anos, a L-lisina tem sido considerada ativa no combate contra as fases aguda e crônica da infecção por FHV-1. Entretanto, dois estudos recentes falharam em demonstrar a eficácia da L-lisina contra as infecções respiratórias em grupos de gatos de abrigo. Em um desses estudos, a terapia com a L-lisina foi associada a um agravamento dos sinais clínicos e aumento da detecção de FHV-1 de DNA viral em amostras de conjuntiva bucal.  Dessa forma, a utilização de L-lisina para o tratamento de FVH-1 deve ser reexaminada”.

Bol sugere que os profissionais seduzidos pelas evidências circunstanciais devem considerar outra razão para a melhora dos gatos com o herpes: a passagem do tempo.

“Quando as pessoas levam o gato à clínica … os sintomas são bastante graves e [os veterinários] prescrevem a L-lisina”, disse Bol. “Ao longo do tempo, com ou sem tratamento, os sintomas melhorariam. Quando você dá a lisina para o gato, os sintomas melhoram. É por causa da lisina?”

“Eles não têm absolutamente nenhuma maneira de dizer que é por causa da lisina”, acrescentou. “Eles não têm nenhuma maneira de dizer que a mesma melhoria ocorreria se não tivessem tratado o gato com lisina. É por isso que você precisa de um grupo de controle [nos estudos]. A evidência circunstancial é nenhuma evidência. … A evidência circunstancial é uma contradição em termos “.

O artigo de Bol e Bunnik, que está disponível em http://bit.ly/1O666oi, observou que cientistas acreditam que a L-lisina não tem propriedades antivirais. Ao contrário, alguns pesquisadores propõem que a L-lisina trabalha reduzindo os níveis de arginina.

E aí reside outro problema, afirma Bol.

“Reduzir os níveis de arginina é altamente indesejável, uma vez que gatos não conseguem sintetizar esse aminoácido… A deficiência de arginina poderá resultar em hiperamonemia[1], que pode ser fatal”.

Tendo estudado o FHV e, depois de ler a revisão sistemática dos virologistas, Maggs permanece cauteloso.

“[Eu] recomendo talvez uma moderação da conclusão final, porque eu não acho que podemos dizer que esta droga deve ser interrompida em todos os gatos com o vírus da herpes “, disse Maggs. “Eu acho que eles introduziram uma nota de advertência útil sobre o uso imediato do suplemento em todos os gatos, mas recomendar uma cessação imediata é provavelmente uma conclusão mais forte do que eu teria elaborado a partir dos mesmos dados.”

Seguindo as regras

Uma autoridade da área, O Manual Merck de Veterinária, recuou de endossar a terapia com L-lisina em casos herpes vírus felino. A mais recente edição impressa, publicada em 2010, sugeriu o uso de lisina.

A versão online já foi atualizada: “Anteriormente, o uso contínuo da L-lisina oral foi recomendado para ajudar a prevenir ou a reduzir a severidade das recorrências de infecções pelo herpes vírus felino. Entretanto, um trabalho recente mostrou que a L-Lisina pode, na verdade, exacerbar as infecções pelo herpes vírus felino.

A décima-primeira edição do Manual, que deve sair em fevereiro, refletirá a mudança, disse um editor, por email, ao virologista Sebastiaan Bol.

Sites pesquisados:

http://bit.ly/1O666oi

http://bmcvetres.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12917-015-0594-3

http://www.veterinarypracticenews.com/lysine-for-fhv-researchers-say-dont-bother/

 

[1]Excesso de amônia na corrente sanguínea: http://www.infoescola.com/doencas/hiperamonemia/.

admin

Informações biográficas sobre o autor.

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2 comentários

  1. Olá, muito interessante esse artigo. Tenho uma gata persa, de 3 anos, que apresentou 2 vezes o quadro de sequestro de corneá e foi operada nessas 2 vezes. A veterinária então disse que provavelmente ela tem o Herpes Virus. Me orientou a oferecer o cat lysin, mas ela não come, no inicio ela comeu o pate misturado, mas agora se recusa totalmente. O que você sugere como tratamento para aumentar a imunidade dela? Algum outro suplemento? Estou muito ansiosa e preocupada com tudo isso, pois a cirurgia é muito estressante, tanto para ela quando para nós, realmente queria evitar que isso acontecesse novamente. Pode me sugerir alguma coisa? Muito obrigada.

    1. Gato Integral diz:

      Olá, Clara.

      Eu não sou veterinária, portanto, não posso fazer indicações. Mas acho que a homeopatia, prescrita por veterinário, pode ser uma boa opção. Tem também um suplemento que não é vendido no Brasil, o Moducare, que pode ajudar com a imunidade. Mas os meus gatos com herpes vírus crônico não responderam a este tratamento.

      Quanto à L-lisina, eu só uso a manipulada e coloco a cápsula goela abaixo do gato. Mas já misturei no atum para uma gata brava, e ela comeu.

      É por tentativa e erro que a gente descobre. Alguns gatos não respondem a nada. Depende de cada organismo e da severidade da infecção.

      Mas isso é só a minha opinião leiga. Qualquer coisa que você fizer, procure a orientação do veterinário. Se for o caso, procure um novo profissional.

      Boa sorte!

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